sexta-feira, 21 de novembro de 2014

Prece ao Inimigo Assumido Mas Não Declarado

Não me engano por sua fala macia ou por seu olhar manso, bondoso, quase misericordioso, quase santificado.

Não me engano pelo abraço amigo que finge dar, pelo riso forçado pra minha piada sem graça.

Não me engano pela pele de cordeiro que esconde a fera violenta, raivosa, invejosa que é você.

Egoísta e egocêntrico, adula àqueles que não te oferecem risco ou que te podem trazer benefícios e sabota quem te supera.

Faz de tudo para que todos te adorem, mas nem todos fecham os olhos sob as suas canções de ninar.

Quando ouso falar contigo engulo o gosto ruim da sua aura obscura e temo. Não sei o tamanho de vossa maldade camuflada de benevolência.

Não sou inimigo seu, não te odeio, não te invejo, nem guardo rancores de você. Mas, sei da não reciprocidade.

Peço hoje, oh criatura, quando me encontrar por aí, desvia, quando ouvir falar de mim, desvia.

Pessoa nefasta, se afasta, desvia, não me veja, não esteja, não seja.
Que assim esteja, que assim seja, amém.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Hei de Morrer do Coração

Para os males do corpo, remédios, repouso...
Para os males do espírito, reflexão, meditação, oração...
Para os males do coração, paciência...
Essa porra dói mesmo, implacavelmente...
Rir das próprias mazelas é o que resta ao palhaço
Escrever sobre os próprios malogros é o que resta ao poeta...
Chorar é o que resta aos olhos...
Paciência, paciência, paciência...
Hei de morrer do coração antes de me acostumar com a paciência,
Antes de me habituar com a ausência...

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Outro Dia Eu Me Encontrei II

Era noite quando caiu.
A queda fez com que olhasse pra cima e visse a si mesmo lá embaixo, estendeu-se as mãos.
Com dificuldade levantou-se e caminharam de mãos dadas até o sol nascer novamente.
Dessa vez não dançaram, nem se abraçaram.
Ficaram apenas contemplando.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Manifesto Marginal

"Podem até maltratar meu coração, que meu espírito ninguém vai conseguir quebrar..."
(Renato Russo)


Daqui da margem eu vejo
Vejo o lago, que outrora fora de águas cristalinas
Vejo os que se banham nele
Vejo o lago secar
Vejo os que se banham nele
Senhores feudais, capitães-do-mato, bobos da corte
Vejo seus corpos sujos da lama mais suja
Até o pescoço
E do pescoço pra cima ostentam sorrisos amarelos
E gritos de ordem
Que daqui da margem eu faço questão de não ouvir
Afinal, estou na margem...
Daqui da margem eu vejo
Vejo os capitães-do-mato perseguindo os que ainda tentam lutar, em vão
Vejo os senhores feudais contando seus vinténs
Vejo os bobos felizes ostentando suas migalhas
Vejo a miséria que suas ganâncias atraem
Vejo a lama se alastrar por onde passam, feito um tumor
Vejo a morte dos sonhos que não chegaram à margem
Vejo a morte dos corpos enfermos
Ouço as gargalhadas dos senhores
Mas, não sinto seus bafos de enxofre
Que daqui da margem eu faço questão de não sentir
Afinal, estou na margem...
Daqui da margem eu vejo
Vejo outros tantos marginais
Impedidos de nadar nos grandes lagos (hoje verdadeiros lamaçais!)
Mas, que aprenderam a chamar chuva
Chuva que vem do céu e purifica
Limpa os rancores, os ódios e atrai o bem
Que faz brotar na terra mais amor
Que faz brotar na mente novas ideias
Que faz nascer uma fonte marginal
De água cristalina, que jorra sem cessar
Água que é compartilhada entre todos nós, da margem
Água de gosto ruim para os senhores e os seus
Eles tentam parar a fonte e mais ela jorra
Tentam calar a voz e mais ela canta
Afinal, estamos na margem...
Daqui da margem eu vejo
Vejo o passeio da lua, o brilho das estrelas e sinto o calor do sol
Vejo sonhos, impensados no lamaçal, se tornarem realidade na margem
Vejo o nascimento de verdadeiros heróis...
Daqui da margem eu vejo
Aqui na margem eu vejo
Aqui na margem eu sinto
Aqui na margem eu não me escondo
Eu faço!
Blindado por cristal, mas, feito de aço
Não durmo, vejo tudo
Vejo o declínio do feudo
E a ascensão de um novo tempo
Pois então
Seja marginal, seja herói...

Saudade Todo Dia II

Eu sou nostálgico
Naturalmente cheio de saudade
Um saudoso incorrigível
Sinto falta até de coisas que não vivi
De lugares que não conheci
De rostos que não vi
De livros que não li
De abraços, de beijos, de olhares que não dei
Mas, choro de saudade em silêncio
Não preciso ficar destilando à revelia.
(...)
Não guardo mágoas, raivas, ódios
Só lembranças boas
Não vivo de passado
É o passado que vive em mim
Me impulsionando a novos voos
Que decerto ficarão na memória
E serão saudade algum dia...
Afinal, como já disse outrora
Sinto saudade todo dia...

quinta-feira, 13 de março de 2014

Elegia ao Silêncio

Singelo
Simples
Significativo
Sincero
Sintomático
Sinistro
Simbólico
Sintético
Sintático
Simpático
Siléptico
Sim, és tu

Silêncio!

Outro Dia Eu Me Encontrei

Outro dia eu me encontrei
Me encontrei comigo mesmo
Fiquei tão feliz
Há anos que esperava este momento!
Eu tremi, suei frio, respirei fundo,
Foi o melhor abraço que ganhei da vida
Olhei no fundo dos meus olhos
E me tirei pra dançar...

domingo, 5 de janeiro de 2014

Provérbio II

Seja gentil
Seja caridoso
Seja bom
Mesmo que de olhos fechados.
Não espere nem mesmo que te agradeçam.
Não conte nos dedos aqueles farão algo por ti
Sobrarão muitos dedos em uma mão.
Escolha presença, quando te oferecem presentes.
Sorria gratuitamente e não espere que lhe retribuam.
Não espere nada de ninguém,
Não crie expectativas sobre os outros
Assim evitará decepções.
Procure não se sintonizar com as energias dos problemas
Eleve-se para encontrar a solução.
O desespero nunca soluciona nada.
Pense antes de falar.
Fale o necessário.
Respire fundo.
Cante.
Não espere aplausos.
Encontre-se.

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Ando Vendo Borboletas

Ando vendo borboletas
Para o lado que olho sempre há uma ali voando
Ando vendo borboletas
E elas andam vendo que lhes quero bem
Ando vendo borboletas
Soltas, livres, simplesmente borboleteando
Ando vendo borboletas
E tenho a certeza de que elas me veem

Enchem meus pulmões de ar
Enchem minha cabeça de sonhos
Enchem meu coração de esperança
Enchem meus olhos de alegria
E acalmam o meu espírito diante das inquietudes da vida

Ando vendo borboletas
E a liberdade que eu ganho em vê-las me deixa voar
Ando vendo borboletas
E esqueço que nenhum problema é maior que a solução
Ando vendo borboletas
E fico pleno, satisfeito, com vontade de cantar
Ando vendo borboletas
E encontro o equilíbrio entre a razão e a emoção

Ando vendo borboletas
Borboleteio vendo os andares
Ando borboleteando as vistas
Vejo andares borboleteantes
Borboleteio as vistas de quem anda
Vejo borboletas andantes
Ando vendo borboletas
A pequenina do rosal
E a que faz chocolate para a madrinha
Ando vendo borboletas
E elas fazem com que eu me liberte
Com que eu transcenda
Com que eu evolua
Com que eu cresça
Com que eu pare para vê-las...

quarta-feira, 24 de julho de 2013

Amor, Amor

Para Elis e Alice

É linda a sensação
De ser alguém,
Parte de você,
De serem vocês partes também
De um outro alguém
A quem tomei como face
Perfeita e encantante
De um sentir sagrado
Onde qualquer ausência
Dupla, tripla ou una
Faz desdobrar aqui no peito
Um papel azul clarinho
Com letras amarelas
Desenhando saudade
Me fazendo lacrimar...

Amor incondicional
Quiçá exagerado
Instinto protetor
Amor, amor
Profundo qual o mar dos olhos seus
Onde mergulho, encontrando-me
E explodo num sorriso
Ao seus jeitos de sorrir
Lhes canto minha alegria
Seus caminhos de dormir
Lhes faço poesia e primavera
Na espera dia a dia
Dos seus dias de florir
Feito a linda flor
Que lhes guardou, sementes
Paciente e lhes trouxe à luz
Minha sensação mais terna de amor...

Minhas pequenas
Minhas grandes
Minhas ilhas
Primaveras, verões
Emoções
Maravilhas
Canção de coração
Canção de Elis
Canção de Alice
Canção de amor
Amor de filhas...
 

(Texto de Fevereiro de 2011)

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Não Devo Discutir Com Idiotas!

Não devo discutir com idiotas!
Não devo discutir com idiotas!
Não devo discutir com idiotas!
Não devo discutir com idiotas!
Não devo discutir com idiotas!
Não devo discutir com idiotas!
Não devo discutir com idiotas!
Não devo discutir com idiotas!
Não devo discutir com idiotas!
Não devo discutir com idiotas!
Não devo discutir com idiotas!
Não devo discutir com idiotas!
Não devo discutir com idiotas!
Não devo discutir com idiotas!
Não devo discutir com idiotas!
Não devo discutir com idiotas!

Repetindo feito um mantra
Em minha alma há alguém que canta
Canta contra os instintos primitivos
Que me faz matar os inimigos
Jogando meu veneno pela boca
Proferindo frases duras com voz rouca
E tremendo com a ira à flor da pele
Tentando frear a força que me compele
Exausto de palavras eu repito
Para que meus ouvidos ouçam, então eu grito
Buscando me livrar do que incomoda:

Não devo discutir com idiotas!


terça-feira, 2 de abril de 2013

Pequenas Tragédias Cotidianas Nº3

É uma dor que não doi. Sufoca. Aperta. Estrangula.
Um nó na garganta. Uma vontade de chorar. Muito.
Chorar durante horas. Dias. Chorar até cansar.
Rios, mares, represas. De lágrimas bem choradas.
Angustiado, aflito. Sei que meu grito não será ouvido.
Por mais que seja alto. Por mais que seja forte.
Por mais que eu não queira a morte. Por mais que...
Vou pular...
Não adianta...
Mais...
Não adianta mais...
Sem saída...
Sem rumo...
Sem prumo...
Sem forças...
Vou ser capa. Deitar na maca. Morto babaca.
Se desfazendo de sua própria vida.
E escrevendo uma carta suicida.

[Salto]





{Queda}

"HOMEM PULA DO VIADUTO E SE ESTATELA NA AVENIDA SOB O TRÂNSITO CAÓTICO DA CAPITAL PAULISTA E CORPO DESAPARECE DEBAIXO DOS PNEUS."

domingo, 31 de março de 2013

Pequenas Tragédias Cotidianas Nº 2

Tarde. Verão. Pôr-do-sol.
Vestido. Sandálias. Barba. Chapéu.
Ondas. Luau. Areia. Céu.
Canção. Violão. Sorrisos. Paixão
Cheiro. Gosto. Rosto.
Tato. Olfato. Paladar.
Mãos. Cabelos. Pelos.
Gemidos. Suspiros. Banho. Mar.
Tempo. Distância.
Barriga. Criança.
Ausência. Falta. Fome. Dor.
Dinheiro. Juiz. Cadeia.
Revolta. Fuga. Briga.
Sangue. Morte. Fim

quinta-feira, 28 de março de 2013

Pequenas Tragédias Cotidianas

Morrera de frio numa madrugada de outono há muitos anos, mas, preferiu, se é que era possível preferir, não sair daquele mesmo lugar. Continuou do mesmo jeito, na mesma posição, com o mesmo aspecto durante um longo tempo.
Desencarnou de um lugar onde já não havia carne, eram ossos apenas e uma pele dura. De sol a sol, de pó a pó, de frio a frio.
Em vida, já era um fantasma. Não tinha noção de horas, dias, anos, nome, endereço, família, nada. Não tinha lembranças.
Nos últimos tempos já nem se lembrava como era falar, depois de tantas tentativas, sem sucesso, de ser ouvido.
No início ainda tinha consciência, quando sóbrio. Lembrava-se de onde vinha e porque estava ali. Mas, o tempo foi passando e foi se criando uma consciência flutuante, que servia apenas para os fatos recorrentes em seu dia-a-dia nas ruas.
E um dia resolveu se instalar na esquina de uma rua movimentada, sob a porta de uma velha padaria que não funcionava mais. Ali ficou cumprindo sua pena de vida. Ainda neste tempo a chuva o incomodava.
O papelão que servia de cama, depois de uma chuva que durou quase uma semana, grudou-se em seu corpo. Fixou-se em sua casca. Ele não era negro, nem branco, nem pardo, nem bugre. Era da cor da sujeira. Da cor do chão. Do limbo. Do chorume. Fedia.
Algumas semanas antes de sua passagem teve momentos de lucidez e tentou se levantar. Não conseguiu. Tentou gritar, mas, sua boca sequer abriu. Decidiu que este mundo já não servia para si.
Mas, quem disse que ele poderia decidir algo? Quanto mais sobre si, se ele mesmo já nem existia há tempos. E foi morrendo aos poucos.
O corpo apodrecido pela vida jazia ali aos pés dos transeuntes e ninguém percebeu quando o coração não batia mais. Quem ia se importar? Era só mais um.
O corpo se foi. O que restou ficou por ali, na mesma posição. Sem acreditar em nada, sem querer mudar. Não assombrava, não atormentava, não se encostava em ninguém. Esperava sem esperança, esperava sem esperar.
Diante da ideia que lhe deu na cuca sobre a imortalidade da alma ele riu e disse pra sua própria ideia que aquilo era bobagem. Onde já se viu?!
Quando ouviu sua própria voz, tomou um susto. Resolveu se levantar e saiu caminhando em busca de alguma resposta, em busca de alguma luz.

segunda-feira, 25 de março de 2013

História de Filme Que Deixa a Gente Com Raiva no Fim

Ele gastou horas escrevendo o e-mail perfeito. Checou e revisou todas as palavras e ideias mais de dez vezes. Ela já o recebeu, mas, deixou pra ler mais tarde. Não deu tempo.
Ela estava saindo para o almoço quando o inesperado fez um surpresa. Um vagabundo qualquer que liderava um bando de bandoleiros do asfalto quente pegou-a pelo braço e disse "nós vamos ali, neném!".Seu coração faltou sair pela boca, nunca havia suado tão frio na vida. O cara saiu rua afora arrastando-a e ela num misto de medo e vontade de gritar, seguia a trilha sem titubeios.
Nunca tivera se sentido tão segura na vida. O vagabundo canalha tinha uma pegada, mil vezes maior do que a do frouxo do namorado. Que perdia tempo com imbecilidades do tipo flores e poesia. Esse não, era diferente, era másculo, forte, poderoso.
Envolta em pensamentos quase eróticos, ela chegou no cafofo, onde outros homens armados fizeram reverência ao rei. "É aqui, neném, tá afim de morar aqui comigo? Largue toda a sua vidinha de almoço de domingo-parque-missa. Grana, segurança, pegada forte e tudo o que você achar que tem direito nesse mundo. Tá afim?"
Ao invés do bandido, quem se rendeu foi a refém e caiu na cama do crápula.
Enquanto isso, o namorado esperava uma resposta. E esperou e chorou todo o tempo em que a polícia  a procurava, a família se desesperava com o sumiço repentino da moça de família que se foi com um vagabundo qualquer raptada na hora do almoço.
Uns choravam e ela comemorava. Virou a primeira-dama do crime, aprendeu a atirar, fumar e outras coisas que não convém contar. Tornou o vagabundo um empresário do crime, mudou seu guarda-roupas e sua forma de falar. Fez o negócio prosperar.
O ex vagabundo já estava tão feliz com os negócios que sonhava em largar o crime. Mas, toda que essa ideia lhe passava pela cabeça e escorria-lhe pelos lábios ela dizia "Tá querendo fuder o negócio, pô? Vou estourar sua cabeça na próxima vez em que cogitar honestidade nesse lugar!"
Ele chorou. Aquele que no começo do texto eu tratei de vagabundo e que a esta altura do campeonato tornou-se ele, chorou.
Foram se deitar. Já fazia dois anos que o tal do ex namorado havia mandado o e-mail e até agora ela não tinha aberto ainda e ninguém sabia por onde ela andava.
Naquela noite, o homem durão, cheio de pegada, que fazia e acontecia, havia chorado. Não se sabe se era raiva, vontade de voltar no tempo e não agarrar ninguém na rua, não se sabe.
"Seu porra, pega um drink pra mim"
"Seu porra? Seu porra?" Aquelas palavras fizeram a cabeça dele girar. E ele caiu, teve um acidente vascular cerebral. Morreu ali mesmo. E ela disse aos empregados "Seus merdas, tirem esse porra daqui! Joguem no lixo, toquem fogo, mas, não quero mais saber dele, morreu, morreu, que deuzutenha!"
Resolveu ir ao computador do falecido e abrir sua velha caixa de e-mail. Quando viu aquele com título "Com Todo o Amor que Houver Nessa Vida" e o remetente sendo o ex namorado, uma lágrima escorreu, ela deu um quase sorriso e clicou para abrir o e-mail. A polícia chegou trocando tiros com os capangas, agora dela. O primeiro atingiu o monitor do computador, o segundo sua testa. É, não deu tempo.

quinta-feira, 21 de março de 2013

Provérbio

Não idealizes ser sol
Se és estrela-do-mar
Mesmo que te esforces
Nunca, o sol, serás
Brilhe tua própria luz
Sê estrela,
Assim o brilho d'outra
Não te ofusca
Faça da tua busca
Algo bom de se sorrir
Não te entristeças
Pelo vencedor
Ganhe tuas guerras
Vá pela senda do amor
Principalmente do auto-amor
Não invejes
Mesmo emanando negatividade
Nunca serás o outro
Nunca estarás no lugar dele
Nunca sorrirás seus sorrires
Nunca dormirás seus sonos
Podes destruí-lo
Mas, nunca sê-lo
Levanta-te, invejoso
Não rastejes,
Mata a víbora
Que se alimenta de ti
Mata-te e nasce de novo
Renova-te!
E não invejes!



segunda-feira, 21 de janeiro de 2013

Homo Sapiens?

O ser humano anda tão desumano, tão cruel, tão irracional, tão descivilizado que chamar alguém de humano é praticamente uma ofensa, um despautério.
A coisa anda tão feia que, em breve, os animais andarão pelos corredores das cadeias jogando amendoins e tirando fotografias.
Levarão seus filhotes para passear aos domingos, para ver os humanos em suas jaulas.
E neste dia haverá rebelião. Os humanos não aguentariam ser ridicularizados, terem seus egos feridos.
Só que a rebelião ficará da grade pra dentro- eles não teriam coragem de sair e enfrentar os gorilas e elefantes.
Como de costume, queimarão colchões e morreriam asfixiados ou queimados. Todos, um por um, produzindo um hecatombe.
E isso ia se repetir a cada domingo, em todos os presídios onde todos os seres humanos estariam presos (ou será que alguém estaria livre das mazelas humanas e afim de trabalhar sua animalidade?).
Quando todos os humanos estiverem extintos, haverá paz e a natureza poderá se tranquilizar e ser curtida à vontade.

[...]

E você o que faz pra ser mais animal? Ama? Respeita? Cuida?

Ego Rude

Magro, parecendo um lobisomem... 
Descalço, pés sujos... 
Que asco eu sentiria se não fosse este um músico... 
Que asco eu sentiria se não fosse um mítico... 
Que asco eu sentiria se não fosse um mágico... 
Que asco eu sentiria se não fosse no mínimo: eu... 
Não, não sou o máximo... 
Talvez um cara prático, 
quase nada plástico, 
que se faz de elástico pra dobrar táticas bélicas e patéticas 
de tornar metódicas as coisas poéticas 
e o orvalho cíclico que nos deixa atônitos, me olha de soslaio e sorri irônico... 
Cínico! Mágico! Trágico!

Saudade Todo Dia



Saudade é o nome daquele tempo.
O tempo que deixou de acontecer faz tempo
E há tempos vem acontecendo em mim
Botando o coração aos pulos
Escorrendo sorrisos pelas lágrimas
Saudade é um tema lindo de se chorar.
Saudade não é querer viver tudo de novo.
É a alegria de estar  vivo ali
Naquele tempo-espaço-cheiro-gosto-rosto-imagem-som.
Saudade é uma foto que não foi tirada
Mas, não sai do álbum da memória
Sempre cheia de sorrisos, joelhos ralados, bolo com café
A saudade humaniza os nossos corações
Surge e desestabiliza tantas emoções
Lembra de todas as velhas desilusões
A saudade é o caminho pra se fazer canções
A saudade é o caminho pra se fazer canções
Sei lá o que é saudade,
Pode ser uma saudação à idade
Que insiste em avançar, deixando tudo para trás
E criando outras histórias,
Novas fotos, beijos, bolos de cenoura
Que ainda hão de ficar na saudade também.
Mais um dia que termina e eu me pego pensando
Como este ano passou rápido, meu cabelo cresceu
Minha barba tá enorme, amanhã é natal
Sinto falta da minha vó, sinto saudade todo dia.

domingo, 20 de janeiro de 2013

Proparoxítonas Soltas

Utópico e tímido
Fez-se lívido, pálido, esquálido
Quiçá inválido
Quando ouviu a tal música
Feita pra deixar atônito
Todo sentimento sórdido
Pra sair de forma trôpega
Precisando tomar fôlego.
E quem tiver ideias flácidas
Sentirá queimar o estômago
Agirá como um sonâmbulo
Retumbantemente impávido
Caminhará pela necrópole
Tomará pra si a lápide
E escreverá seu texto último:
O tolo ri-se sem estímulo
E toda gente acha o cúmulo
Mas, a nobreza tange o espírito
Dos que buscam ser o único
O único a tornar-se célebre
É o bobo que chora ouvindo música.

Cinquenta Marrons de Bosta (A História Trágica de Jarbas e Leila)



AVISO: SE ACHOU O TÍTULO UMA BOSTA, NÃO CONTINUE LENDO!

O TEXTO TENDE A SER PIOR! E O FINAL, PODE ESPERAR, SERÁ NOJENTO!
LEIA O PRÓXIMO TEXTO QUE PODE SER BEM MELHOR QUE ESTE!


Jarbas teve uma infância normal. Era um garoto estudioso e feliz. Até o dia que marcou sua vida para sempre.
Naquele fatídico dia, Jarbas chegou da escola, adentrou a sala e ouviu gritos de sua mãe. Seu pai, tal qual o pai do doutor Sabino (já leu Nelson Rodrigues??), morreu em meio a um mar nojento e marrom. Não teve nem a oportunidade de ter, como ato derradeiro, o apertar da descarga. Esse foi o primeiro marrom que Jarbas guardou em sua memória de menino de 12 anos.
A cena chocou. Obsecou. Parava horas a fio observando os cães fazerem suas necessidades na rua e depois se aproximava pra ficar contemplando. Analisava cor, tamanho, cheiro, textura.
Jarbas foi crescendo e ganhando novas manias ao redor do fétido assunto. Uma delas era ouvir pessoas fazendo o popular número 2. Quando era possível até gravava os sons e ficava ouvindo, ouvindo, como se fosse música clássica.
Gostava também de espiar este ato sublime e íntimo. Qualquer oportunidade que tinha ou grudava o ouvido na porta ou o olho na fechadura.
Mas, ao mesmo tempo, carregava em si um medo tamanho de morrer feito seu pai.
Nas suas horas, tidas como sagradas, eu sempre seguia o mesmo ritual: lavava as mãos antes e depois, sempre levava consigo algo reconfortante para ler e uma garrafa d'água. Nunca tinha contato direto com o vaso sanitário, forrava-o com muito papel higiênico, talvez pra se preservar de ser contagiado pelo mal do pai cagão.
Jarbas, terminou o colégio, fez faculdade: biologia. Especializou-se em estudar as formas de excreção no reino animal.
Já tinha mais de 25 anos quando teve sua primeira namorada. (Outras vezes teve apenas romances curtos com diversas garotas, que normalmente o abandonavam por conta de algumas excentricidades. Observar cocôs de cachorro, por exemplo.)
Leila era linda, corpo escultural, inteligentíssima, simpática, conquistou Jarbas num primeiro contato. Claro, tinha que ser na porta do banheiro do shopping, enquanto ambos esperavam seus irmãos mais novos.
Jarbas era um gentleman, apesar de tímido e de se esconder por detrás dos óculos e da barba rala, sabia bem como falar às mulheres.
Começaram a namorar muito rápido. Paixão quente, fumegante, feito... enfim, deixa pra lá.
(...)
Num dia, Jarbas foi visitar Leila, que estava sozinha no apartamento que dividia com a irmã mais nova e uma prima do interior. Ela vestia uma camisetinha branca curta, que deixava a barriga à mostra e um shorts jeans, feito com uma velha calça desbotada. Ele uma camiseta branca básica e um bermudão cáqui. Quando a viu, desejou-a mais que em todos os outros dias. Ela sabia como provocá-lo e aquela era a grande oportunidade de se "conhecerem melhor".
Em poucos minutos já estavam nus se olhando. Ele deu passos à frente e sorriu, um sorriso nunca visto antes por ela.  Leila disse: já volto! E ele ficou atento, pode ser que ela fosse ao banheiro. Ao perceber que se tratava de problemas gastro-intestinais, correu à porta do banheiro. Entrou sem bater.
Leila deu um grito e tentou se esconder entre seus braços. O cheiro estava terrível e ela morrendo de vergonha. Jarbas estava louco. Olhos arregalados. Mãos trêmulas. Quase babava. Foi a primeira vez em quase 15 anos que vira alguém vivo no ato sublime da defecção.
Empurrou Leila para o lado, ajoelhou-se na frente do vaso e contemplou, ficou horas ali. Ela ainda tentou apertar a descarga, mas, ele impediu-a com o olhar apenas. E ela ficou em estado de choque, com a bunda colada no box. E ele ali estático. Plástico. Cínico. Clínico. Ilógico. Irreal. Imaterial. Inerte.
Passava das dezenove horas quando Leila saiu de seu transe e viu que Jarbas continuava ali. Ela saiu devagar, na ponta dos pés. Trancou a porta do banheiro. Vestiu-se e saiu.
Por volta das vinte e duas horas, ela voltou com a mãe dele, dois policiais e três amigos. Abriram a porta e...
Jarbas havia desaparecido. Não existia essa possibilidade, a janela era pequena e tinha grades. A porta não tinha como ser aberta depois de trancada por fora.
Mas, um fato intrigou os presentes: o vaso estava vazio.
Será que Jarbas fora sugado pelo vaso sanitário do apartamento de Leila?
Vasculharam o apartamento. Verificaram as câmeras dos corredores. Nem sinal de Jarbas.
(...)
Leila foi presa, acusada de assassinato e ocultação de cadáver.
Em momentos de grande tensão ela sofria com as pressões intra-intestinais, e assim que chegou à carceragem viu-se sem saída. Teve que enfrentar o banheiro do xilindró. Ao entronar-se, sentiu algo encostando em suas partes, logo reconheceu a mão de Jarbas que saia vaso afora procurando por ela.
Um grito. Um susto. Um colapso. Um coração que já não bate mais.
Leila infartou e morreu ali mesmo, chafurdada em suas próprias escatologias, tal qual o pai de Jarbas.
Dois meses depois da morte de Leila na prisão, a mãe de Jarbas estava em casa rezando o costumeiro terço às dezoito horas quando o filho bateu à porta e entrou. Fedia.
Sorriu, com os poucos cacos que lhe restavam como dentes e seguiu até o banheiro, onde o pai morrera. A mãe que estava muito assustada, não conseguiu dizer nada apenas seguiu o filho.
Ele sentou-se no sagrado vaso e desfez-se num lamaçal fétido e marrom. Não sobrou nenhuma parte inteira, desfez-se num multicolorido lamaçal marrom. Desfez-se em cinquenta marrons de bosta.

Toda Palavra é Obscena

Ao também crápula e amigo das palavras Juliano Lourenço

Toda palavra é obscena
Se insinua, se desnuda
Se mostra, se oferece
Faz uma dança sensual
Cativa e cria paixões
E o leitor diante de sua demência voyeur
Orgasmaravilha-se
Deleita-se
Torce-se e retorce-se
Respira fundo
Engole o nó da garganta e lê.

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Profissão: Artista I

Ao amigo Alexandre Villas-Boas

O artista tem que ser um grande inconfomado, isso faz com que sua busca seja constante e sua obra seja significativa...
Enquanto houver artistas que se reviram na cama por um ideal ou "apenas" uma boa ideia, que fazem o que tem de ser feito, mesmo que isso seja incômodo pra muitos, ainda poderemos acreditar que nem tudo está perdido...

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Paixão da Flor Madrugadeira Que Morreu Antes Mesmo de o Sol Sair

Deslinda-se a flor madrugadeira
Desfaz o botão e
Olha por entre as pétalas de outras flores
De onde vieram aquelas gotas de orvalho?
Não sabe se sorri ou se olha
Não sabe se respira ou se despe-se
Seca, despetala e morre

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Ao Velho Raul

Ao amigo e avô "emprestado", que cumpriu seu ciclo por aqui, Seu Raul...

A vida é realmente um ciclo
Ciclo de água corrente, que vai, vai e vai...
Traz pessoas que vão fluindo, flutuando conosco durante parte do percurso
E, de repente uma correnteza um pouco mais forte leva estes de nós...
Alguns ainda voltamos a encontrar no mesmo rio em algum momento da vida, se necessário.
Outros, só quando a gente também for desaguar no mar...
E esse não é o mar da saudade que nos resta, pra chorar
Este é o mar da vida
Vida que não acaba por aqui, como essa pequena estrofe.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Ciclo

Daqui a pouco 
o agora há pouco 
será ontem e o ontem 
já será ano passado!
O ano passado vai ser só saudade

E a saudade trará algo de outrora
E essa outra hora pode ser daqui a pouco.

Morre um Vagabundo

Morre um vagabundo.
Lamentam, os amigos.
Festejam, os inimigos.
Choram, as viúvas.
Surgem, os filhos.
Reclamam, os cobradores.
Tranquilizam-se, os devedores.
Aliviam-se, os pais.
Velam-no, os curiosos.
Apura, a polícia.
Acompanham-lhe, as moscas.
Devoram-no, os vermes.
Recebe-o, o diabo.
Santifica-o, o algoz.
Esquece-o, a sociedade.

Esquecer? A quem?
Antes mesmo de nascer já era um predestinado ao esquecimento
Já nasceu sendo ninguém e jaz na vala da indigência até hoje, morto
Putrefazendo-se como símbolo máximo de sua vaidade de vagabundo.
Não chegou a ser um problema social
Nem foi visto, tampouco citado.
Morre um vagabundo, e daí?


quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Um Pouco Mais Tarde Ele Voltou e Fez

Reclamou mais uma vez do frio, porém vestiu o casaco e saiu, olhando de soslaio pr'aqueles que ainda estavam na sala. As pessoas ali, permaneceram em silêncio. Tensas, depois de ouvirem o esbravejar dele.
Não pensava em outra coisa além de cumprir sua promessa.
Os outros não acreditavam que ele fosse capaz de tal, por isso se esqueceram das palavras outrara ditas em tom de ameaça. Foram dormir.
Um pouco mais tarde ele voltou e fez.

Duas Bexigas Voando Sob a Lua Cheia

Era lua cheia. Passava das vinte e duas horas.
A lua estava com aquela cor meio flicts*.
E eu, chegando em casa quando vi.
Duas bexigas brincavam sozinhas com o vento pelo meio da rua.
Uma rosa e uma azul.
De vez em quando uma subia mais que a outra e num instante estavam juntas de novo, como se fosse um pega-pega.
Era possível ver sorrisos nas bexigas, como se fossem as próprias crianças.
Rodopiavam, subiam, desciam, mas, nunca ficavam paradas.
Movimentos insistentes sob o olhar generoso da lua e a companhia inevitável do vento.
Não me importa saber de onde vieram, só queria saber pra onde elas iam tão felizes.
Provavelmente acabar estouradas pelos pés de alguém que não sorri.
Foi singelo. E eterno.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Palavras Soltas



Pode parecer clichê, mas, a vida é simples, as pessoas é que fazem questão de complicá-la.
E aí passam grande parte do tempo tentando explicá-la.
As pessoas são uma complicação só.
Nunca se sabe o que tem por trás de um sorriso amistoso num domingo à mesa num almoço de família.
A gente se surpreende e se decepciona tanto, tantas vezes com quantas gentes.
Mas, cada um tem o que precisa ter das pessoas para aprender...
Aprender a ser e aprender a não ser,
Aprender a amar e aprender a ignorar certas questões e deixar que a vida flua, sem se perder em mágoas, rancores, raivas ou ódios... isso é cancerígeno.
Precisamos aprender a não exigir nada de ninguém que não venha de coração.
Aprender a não virar as costas para os nossos, principalmente quando eles precisarem de nós, pois quando for a nossa vez de precisar, eles podem não estar mais por ali...
Não viver se culpando, aprender a perdoar se perdoando e não cometendo os mesmo erros, chorando as mesmas lágrimas...
Fazer planos é importante, mas, planos de vários tamanhos: pra tarde de hoje, pra sábado que vem e pra daqui a quatro anos... Lembre-se que a tarde de hoje pode não chegar e nós nos perdemos pensando em daqui a quatro anos.
Isso não é uma lista de conselhos, é uma lista de ideias, de coisas que a gente faz, refaz ou nunca faz.
Deixo como ideias amar, fazer caridade, acreditar nas pessoas (até que estas provem que não o merecem), rir e muito. Ter fé.
A fé não remove montanhas, mas, te deixa forte pra ir às montanhas, subir e lá do alto gritar: eu estou aqui e foda-se!
A vida é isso, eu estou aqui e foda-se. Enquanto eu não estiver prejudicando ninguém, influindo no destino de ninguém, eu posso escolher fazer o que quero e foda-se de novo.
Posso parecer mal educado, mas, quem aqui disse que precisamos aparentar isso ou aquilo pra este ou aquele? Enquanto eu puder escolher, eu vou fazer o que quero e ser feliz, um dia por vez, um pouco por vez, do meu jeito, à minha maneira.
Não me cabem rótulos, por mais que os tenha. Não me cabem descrições, por mais que a façam. Não me cabem críticas, por mais que eu erre. Me cabe a minha imperfeição humana em busca da evolução.
A vida é simples.
E curta.
Curta!

sábado, 29 de setembro de 2012

Rodamundo

Cheguei.
Deitei-me com certa dificuldade, numa cama que não se parecia com a minha. Numa vida não que não era a minha.
Olhei pro teto e ele olhou pra mim.
A lâmpada velha, empoeira
da que mal iluminava, quando acesa, parecia querer me devorar.
E o teto, este sim, rodava, rodava, rodava.
Aqui dentro tudo rodava.
De sopetão veio uma ânsia, não deu pra conter, tive que mandar meu quarto pra lavanderia.

sábado, 8 de setembro de 2012

Maravida

Não sou detentor de verdade alguma e isso tampouco me interessa. Só sei das dúvidas que carrego e das respostas se encontro. Para mim são estas que me vestem melhor.
Não faço questão de convencer ninguém com as minhas palavras, nem provar nada com elas. Me instiga o valor imensurável do fazer e assim, meus atos falarão por mim.
Não tenho grandes pretensões nesta vida, só não quero passá-la em branco, ou viver procrastinando tudo, querendo alcançar um sonho grandioso (cheio de luzes reluzentes e trombetas berrantes, todos vestidos de uma tinta fosforescente), pois sei que quando chegar uma certa idade estarei velho demais pra este e vou ter que mudar de ideia, malogrando minha existência. Meu grande sonho é feito por pequenos sonhos que vou tendo no dia-a-dia e fazendo-o acontecer, parte a parte.
Eu quero mesmo é amar cada pessoa (que vale a pena!) individualmente e aproveitar cada gargalhada como se o amanhã não existisse.
Quero ouvir todas as canções do mundo pra saber qual é o sabor que música dá pra minha vida.
Não quero ter nada além daquilo que faço por merecer. Minhas ganas são de ser uma pessoa melhor, assumindo os defeitos, erros, me arrependendo das coisas, mas, nunca da vida. Quero mais é me conhecer melhor e rir muito com as coisas que digo e faço.
Por fim, quero deixar na minha lápide apenas uma frase que pode parecer boba, mas, que alguns (que têm a mesma busca que eu) entenderão a complexidade e profundidade dela: Eu vivi...

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Visita Inesperada

Naquela manhã, por volta das seis e meia, ela olhou-se no espelho e sentiu-se velha.
Era a primeira vez que lhe ocorriam tais pensamentos. Depois da conversa do dia anterior, acordou com essas coisas na cabeça.
Ficou um tempo esticando e enrugando a pele do rosto, fazendo mil e uma caretas. Parecia querer se convencer que estava velha, gasta.
Levantou o queixo e observou seu pescoço. Deu umas puxadas na pele e lavou o rosto com um sabonete neutro que estava lá, pela metade.
Enquanto enxaguava o rosto, olhou suas mãos. As palmas e as costas das mãos.
Olhou atentamente cada unha. Algumas com um esmalte desgastado, outras meio roídas num nervoso qualquer. Qualquer não! Ela ficou brava feito o cão. E riu, ao lembrar da bobagem que a tirara do sério. Viu que realmente era uma bobagem.
"Ai, como eu sou boba, às vezes."
Pensou até em se desculpar, mas, já era tarde.
"Nunca é tarde." disse. Mas, dessa vez, era tarde. Só ela que não sabia.
Escovou os dentes. Gargarejou. Sorriu pra ver se estava tudo bem.
Voltou ao quarto, pegou duas toalhas: uma para o corpo e outra para os cabelos.
A roupa já estava separada, só não sabia onde estava sua bolsa.
Entrou no banho e desafinadamente, molhou umas sete canções que gostava até desligar o registro da água. Ufa!
"Nossa, já são quase oito horas!"
Começou uma dança frenética pelos cômodos da casa, saiu à procura de tantas coisas que até se esquecia do que estava procurando.
Oito e quarenta e dois. Pronta! Banho tomado, cabelo arrumado(cabelo arrumado= chapinha feita com sucesso!), maquiagem feita. Unhas... putz! Que droga de unhas! Roupa impecável. Estava linda... e velha. Saiu pra rua com esse pensamento.
Antes de chegar no ponto de ônibus, duas quadras e meia dali, se lembrou da bolsa.
Toc-toc-toc-toc-toc, num ritmo acelerado, desfez-se em mais uma dança: corrida de salto alto até sua casa.
O cabelo de lindo, passou a ligeiramente bagunçado e no portão da casa já era um verdadeiro "fuá". A maquiagem escorria e ela já estava a cara de um animal qualquer em extinção. E pior: sentia-se velha, às nove e dezessete daquela manhã ensolarada de inverno (sim, os invernos de São Paulo, são sempre quentes).
Ah, a bolsa. Pegou-a e antes de tentar sair novamente, olhou-se no espelho.
Deu um grito. Quase caiu pra trás quando viu a sua superprodução desmoronada.
Era uma bela mulher, linda mesmo. Só ela não acreditava, já que estava velha.
Mas, de fato estava complexa a sua situação.
Tocou o celular.
"Alô! Quem é?"
Ouviu uma respiração quase tão ofegante quanto a sua na hora do corre-corre. E nada de alguém responder.
Pensou alto um palavrão. Um palavrãozinho de nada, sabe daqueles que a gente solta quando está atrasada e toda bagunçada? Ah, esqueci de citar... e na TPM!
Do outro lado da linha, o alguém segurou o riso e ouviu mais algumas dúzias de palavrões. (Alguns que nem sabia que existiam!)
Ela estava descabelada, com a maquiagem borrada, atrasada e puta da vida, e aí tocou a campainha.
"Quem será o infeliz*?"

*infeliz= pra não botar meia dúzia de palavras de baixo calão.

Olhou pela fresta da cortina.
Uma das suas sombrancelhas se levantou e a boca ficou ligeiramente aberta. Não acreditava no que via. Passou a mão pelos cabelos, desgrenhados, e tentou dar um jeito... em vão.
"Peraí!"
Lavou o rosto novamente com aquele velho sabonete, pra tirar a cara de urso panda que havia se estabelecido e enxugou na toalha do cabelo. Deu passos rápidos pela sala.
Abriu a porta devagar, como se um movimento brusco qualquer pudesse ter efeitos desastrosos. Desceu os quatro degraus. Nove e cinquenta e cinco.
Aproximou-se do portão e disse com uma voz calma, serena, contrária àquela que proferiu os palavrões:
"Oi."

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Relatos de Um Possível Morto

E aí quando atendi ao telefone, a voz cavernosa dizia que queria falar com a pessoa responsável por... hã!?... queria falar com a pessoa responsável por mim.
(Eu já saí da casa de mamãe faz tempo, pô!)
"Quem deseja falar?"
"É o senhor o responsável?"
Obviamente! Depois da maioridade, acho que já sou responsável por mim.
"Sim, senhor, sou eu. Quem é o senhor e o que deseja?"
"Me desculpe dar uma notícia dessas a esta hora da manhã, mas, são ossos do ofício. Óbito, senhor. Preciso que o senhor venha reconhecer o corpo."
Fiquei parado, sem voz, decerto, gelado. Pedi pra que ele repetisse o nome para ver se era de mim mesmo que ele estava falando. Tendo o cavernoso confirmado, pedi uma breve descrição só pra me certificar que não se tratava de homônimo. Pasmei mais ainda: ele me descreveu inacreditavelmente e a roupa era exatamente como a que eu vestia.
"Tu...tudo bem, senhor, estou indo 'praí'."
O primeiro pensamento que tive após a ligação foi: "Putaquipariu, morri!! E nem tiveram a decência de me avisar!"
E aquela ligação do cavernoso não era um aviso? Era o quê então? Um convite pra ir ao cinema?
Mas, 'peraí' se eu sou o morto porque eu atendi ao telefone?
E a dúvida começou a me corroer. Não sabia se estava vivo, morto ou nenhum dos dois, quiçá os dois. Sabia que não estava bem, aquela ligação mexeu comigo.
Eu me beliscava, mordia, cheguei ao ponto de sair correndo pra bater com o dedinho no pé da mesa da cozinha. Dor eu sentia. Isso é um bom sinal.
Será que os mortos sentem dor?
Passei o resto da tarde armando armadilhas pra mim mesmo, só pra me certificar que estava vivo... ou morto... Dúvida cruel.
Decidi tocar a vid... bom, que seja a morte, decidi tocar a morte.
Peguei as fotos na gaveta, olhei uma por uma com aquele ar nostálgico de quem se despede. Sorri vendo algumas, com outras chorei copiosamente e algumas eu rasguei. Ah, umas duas ou três toquei fogo pra ninguém nunca mais ter aquelas lembranças. Seria muito invasivo alguém rever aquilo.
Ouvi as músicas que mais gosto e senti uma vontade de tocar violão, coisa que nunca consegui em toda minha vida. Era uma frustração pra mim nunca ter ido além do bom e velho Come As You Are, que todo mundo que não toca consegue fazer.
Peguei um cigarro, mas, guardei-o de novo. Já passava da hora de parar de fumar.
Abri o armário pra escolher uma camisa bonita pra pôr no defunto. Sem terno. Morto de terno é coisa de velho. Opa, mas, quem vai vestir o defunto, já que ele era eu? Enfim, escolhi uma camisa bacana, uma calça jeans meio gasta, mas, que eu adoro. É bom chegar do outro lado e causar uma boa impressão. Mas, se eu já morri, já estou do outro lado.
Putaquipariu de novo! E se o outro lado for esse?
Vou passar quanto tempo aqui, enfurnado e morto no meu próprio quarto?
Guardei a velha calça, melhor que ela viva com outras pernas do que ficarem longe de mim, estragando debaixo da terra.
Mais e mais dúvidas surgiam, todos os tipos de dúvidas. Tanto que fiquei nauseado... vomitei horrores e fui me deitar um pouco.
Quando deitei, mais um pensamento idiota (mas, que faz sentido): por que deitar se eu vou passar o resto do "daquiprafrente" deitado? Fechei os olhos e cochilei.
(...)
Era mais de sete da noite quando eu me levantei e fui ao IML.
Chegando lá, me identifiquei com um nome falso e perguntei pelo meu próprio nome. O velho de voz cavernosa me disse pra esperar (era o mesmo do telefone, não tinha como não reconhecer aquela voz).
"O senhor está preparado? Tem alguma doença cardíaca? Intolerância a sangue e outros cheiros comuns a um necrotério?"
"Não, senhor, estou pronto."
"Venha por aqui."
E eu entrei na sala dos cadáveres.

sábado, 25 de agosto de 2012

O Normal e o Maluco

Pessoas normais sofrem
Choram
Caem
E se levantam.
Se esquecem e recomeçam tudo outra vez...

Pessoas malucas sofrem
Choram
Caem
E se levantam.
Mas, aprendem e daí tiram forças
Pra se levantarem quantas vezes for preciso.

Pessoas normais se esforçam
Para o serem
Já disse o Raul.

Pessoas malucas não aceitam a normalidade
E vão aprendendo
Com o tempo, com a vida, com o vento...

Pessoas normais são notadas?
Pessoas malucas são notáveis...

De Repente o Vento Assobiou

De repente, ele ouviu o vento assobiar lá fora e sentiu um calafrio.
Tremeu até os ossos. Os olhos lacrimejaram.
Levantou-se com cuidado e fechou a janela.
Voltou à cama e algo estranho havia acontecido com seu corpo.
Não sabia o quê.
Sentia dores na região das escápulas como se algo rasgasse sua pele e seus ossos.
Como se faltasse coragem até pra respirar, nem tentou descobrir o incômodo. Apenas deitou-se de bruços, buscando dormir.
Já passava das três da manhã quando uma tosse terrível o sacudiu na cama, parecia que seus pulmões iam saltar chão afora. Sentiu um sabor estranho na boca, como se tivesse  comido um passarinho vivo. Não conseguiu abrir os olhos, por mais que tentasse.
Ficou ali digerindo suas dores. E o vento ainda assobiava mais alto.
Abriu os olhos e não enxergava nada além de uma névoa acinzentada.
Ouviu passos na escada. "Enfim, alguém pra me ajudar."

A porta rangeu, abrindo-se.
Um cheiro invadiu o ar, empestiou o quarto. Não sei se cheirava mal mesmo ou eram as circunstâncias que faziam com que cheirasse mal.
"Vim te buscar, vamos."
Houve silêncio, tanto que dava pra ouvir um coração batendo acelerado, feito trote de cavalo assustado.
Respiração forte, soluços, convulsões.
Agarrou-se a qualquer coisa que havia ali, esforçando-se até se colocar de pé, em meio à escuridão acinzentada e ao silêncio ruidoso.
Um tiro. Certeiro. Caiu um corpo no chão e o vento assobiou mais um pouco e  parou.
O tempo parou e se fez amanhecer. Um pássaro cinzento cantou num galho ali perto da janela e o defunto sorriu, como se nada tivesse acontecido.
O pássaro voou e ninguém soube quem morreu, nem quem matou.
Só se sabe que o pássaro voou.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Oportuna Idade

Ele já estava por ali quando ela chegou.
Aliás, não parava de verificar as horas no celular.
Pronto! Ela chegou, estava linda de verde.
Ele tinha penteado o cabelo e até passado perfume.
Ela veio pra cumprimentá-lo com um beijo no rosto e suas mãos tentaram um abraço.
O imbecil estava nervoso demais, esquivou-se do abraço (sendo que era isso o que ele mais queria desde o dia em que marcaram esse encontro na porta do metrô).
Encostaram-se na mureta e começaram a conversar.
Meio distantes um do outro, mas, isso não era problema.
Ela ria e se mostrava afim de ouvir o que ele tinha a dizer.
Ele não tirava as mãos do bolso e ficava olhando pro nada.
Ela se aproximava e ele apoiava uma perna sobre a outra, numa dança nervosa.
Ela olhava nos olhos.
Ele olhava pro nada.
Burro!! Olha nos olhos dela e diz a que veio!

[Quase saquei o violão e ofereci uma canção em nome do tal.
Mas, fiquei ali, de voyeur (não tinha nada pra fazer a não ser esperar)]

E ficaram naquele jogo durante um longo tempo.
Estava dando a hora dela e nada do zé mané tomar uma atitude.
Ela aproximou-se pra se despedir.
Ele tremeu. Sua espinha gelou! É agora!
Olharam-se nos olhos, como não haviam feito ainda.
Os olhos escorreram até a boca.
Ela olhou pra cima
"Ai, vai chover, preciso ir
Até mais."
Deu-lhe um beijo no rosto e a cara dele caiu no chão!
Por que não fez nada?
Perdeu a oportunidade do dia!

(...)

Ela já estava dentro do metrô quando tocou o celular.
"Oi... é... hummm... a gente pode se ver de novo outro dia?"
Ela sorriu e não respondeu.
Desligou na cara do carinha.
Bloqueou ligações daquele número.
Excluiu do Facebook.
E ele com cara de bunda, olhando pro nada ainda.

É, meu amigo, a palavra dita, a flecha lançada e a oportunidade perdida são coisas que não voltam.
De volta à prancheta.


(Baseada numa cena que vi acontecer hoje de tarde na rampa da Estação de Metrô Corinthians-Itaquera, enquanto esperava pra ir tocar. Não estive presente no desfecho, mas, criei este pr'aquele rapaz largar de ser besta!!)
  
Pra ilustrar:

sábado, 18 de agosto de 2012

Paixão do Filho de Chocadeira


O filho de chocadeira não tem coração.
O filho de chocadeira tem uma pena dourada a ostentar
E dá pena do filho de chocadeira por ser tão vulgar.
O filho de chocadeira não tinha mãe
Mas, ainda assim, pra matá-la,
Tirou a máquina da tomada
E jogou-lhe água da privada.
O filho de chocadeira teve filhos (sem chocadeira)
Só pra comê-los vivos
Pra tê-los nas mãos.
O filho de chocadeira ficou rico
E passou a tomar sangue fresco.
O filho de chocadeira despreza os seus.
O filho de chocadeira se acha o próprio deus.
O filho de chocadeira está envelhecendo
E as frangas novas não gostam de galo velho.
O filho de chocadeira está só.
Numa tristeza e amargura que dá dó.
Mas, não tenho dó do filho de chocadeira,
Cada homem escolhe o seu destino, faz as suas escolhas.
O filho de chocadeira está tossindo
Tossindo muito
Tossindo demais
Gosto de sangue na boca
Pingos de sangue na roupa
Jorra sangue dos orifícios do filho de chocadeira
E ele chama sua mãe
E ele clama sua mãe
E ele não reclama com sua mãe.
O filho de chocadeira não tem mãe.
O filho de chocadeira não tem filhos,
Ou é assim que ele sempre fez questão de mostrar.
Morre o filho de chocadeira
Engasgado com seu próprio sangue
Sentado na velha cadeira.
Não houve dinheiro pra salvá-lo da morte.
Não houve franguinhas pra desejarem boa sorte.
Não houve ostentação.
O filho de chocadeira jaz vagando pela escuridão.
Gemendo e chorando por ter se negado a sorrir.
O filho de chocadeira não consegue dormir.
Quer gritar, mas, ninguém vai lhe ouvir.
Sinto pena do filho de chocadeira,
Que morreu sem nem haver sinal de choradeira.

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Sem Título

Eu vivo de música.
Isso não significa que preciso me prostituir pela música.
Tenho autonomia de fazer o que eu quero, não o que querem que eu queira.
Minha música não é pra "pegar mina", passei dessa fase há muito tempo.
Meu trabalho serve para mostrar um outro pensar na vida, sem ser óbvio, sem ser babaca, sem ser apelativo.
Não, não é ego.
É respeito pelo que eu estudo, pelo que eu pesquiso, pelas pessoas que me ouvem, pelo espaço que me é cedido, pelos grandes que muito contribuíram pra minha formação, pelos grandes que muito contribuíram pela boa música.
É o respeito que tenho por mim mesmo e por aqueles que posso chamar de meus.
(...)
Ondas vão e vem, como na praia.
Deixo que se vão, fico com a música que está fixada no horizonte, onde o céu beija o mar.
E que mesmo que alguns se esqueçam de olhar, de ouvir, vai ainda estar lá.
Não preciso ser um virtuose, preciso ser verdadeiro.
Não é meu ego que produz som, a música se produz através de mim que sou apenas um aprendiz, um honesto operário a serviço dela.
Eu vivo de música, sim e respeito à música que se dá o respeito.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Singularização de um Antigo Plural

E foi assim...
Se fundindo, se confundindo, se fudendo...
Tanta fusão que confundiu, fundiu, fudeu!
Não há decantação que separe.
E não há processador de frutas multiuso que misture novamente.
É confuso, estranho, humano.

Não há antes, quiçá haverá um depois.
Ninguém sabe.
Ninguém sabe de nada.
De nada.
Obrigado.
De nada.

Foi obrigado pelas circunstâncias a mudar.
Verter-se para o seu lado mais obscuro, mais perverso, menos humano.
Desconheceu-se. E sentiu vergonha disso.
Matou-se pra se reinventar.
Levantou, tossiu, escarrou seus rancores, seus ódios
Sob lágrimas, apresentou seu peito aberto (que sangrava).
Não obteve respostas.
Estas nunca virão.

Que venha o que tiver de vir, não há forças, mas, morrer não assusta mais.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Ladainha da Paciência

Respiro, logo, não piro
Respiro, logo, não piro
Da pilha não me retiro
Não explodo porque respiro

Já Dizia Ary Toledo

Certas pessoas
Pessoas certas
Mesmas palavras
Ideias opostas
Enquanto umas te levam além
As outras te jogam na bosta.

domingo, 15 de abril de 2012

Sensação

As mãos...
Os dedos apertam-se, comprimem-se, torcem, retorcem, estalam, vão à boca, aos bolsos, à cabeça... Suam, tremem, coçam, param...

Os pés...
'Praláepracálejando', desequilibram-se, chutam, pulam, dão pequenos e ágeis tapas no chão, pisam, correm, caminham, param...

A boca...
Fala, rói, morde, cospe, saliva, os dentes batem, os lábios tremem, suspira, grita, sussurra, cala, soluça, pára...

O estômago...
Se 'nauseabundeia', enjôa, enoja, gela, gira, se retorce, faz borboletas amargas baterem asas, tem ânsias, pára...

A cabeça...
Gira, tonteia, descansa, bate, sua, apóia-se sobre as mãos, pensa, imagina, deteriora-se, balança, confirma, nega, pára...

O coração...
Dispara, pulsa, se aflige, sente, enfraquece, dói, desacelera, espera, pára...

Os olhos...
Que outrora miravam, quiçá olham...
Concentram-se em chorar...
Não, estes não param...

(Texto de Julho de 2008)